O MITO DO AJUSTE FISCAL E A ECONOMIA POLÍTICA
Ceci Vieira Juruá*
Exposição sobre política fiscal, na revista Conjuntura
Econômica de outubro 2000(1), considera que “o governo tomou
três medidas importantes para consolidar o ajuste fiscal... : a) definição dos limites globais para o endividamento,
b) anúncio da meta fiscal primária para
2002, c) apresentação de um orçamento
realista para 2001”. (2) Depreende-se do texto que o ajuste pretendido estaria vinculado a:
a) superávits primários superiores a
2,5% do PIB; b) estabilidade da proporção dívida pública interna/ /PIB. Para 2001, o governo disporia também de
receitas patrimoniais (licenças de exploração de novas bandas de telefonia) e
de repasses da Petrobrás (estimados ambos em 1,2% do PIB, e portanto em valor
próximo de R$ 12 bilhões). No entanto,
o texto adverte que “o excelente desempenho fiscal dos últimos 20 meses...
continuaria dependente da existência de fontes de receitas que irão se esgotar
até 2003”. Por coincidência ou não,
em 2003 estará tomando posse um novo Presidente da República ...
O conceito de ajuste fiscal que tem sido
adotado pela maioria dos economistas considera apenas a possibilidade de
rolagem da dívida pública e a capacidade de obtenção de um superávit primário
anual do tamanho dos juros da dívida interna, como se a dívida fosse o único
compromisso do governo. Esta
ótica, adotada pelo discurso oficial,
privilegia apenas o fluxo de pagamento dos encargos da dívida e uma única
relação – entre o total da dívida interna e o PIB. Trata-se de uma simplificação excessiva que despreza um conjunto
de elementos estratégicos do ponto de vista da economia e da política.
Na verdade, o enfoque neoliberal não permite,
em primeiro lugar, que se analise em profundidade o desempenho dos gestores do
orçamento fiscal, isto é das autoridades governamentais que decidem sobre a
utilização dos impostos arrecadadados e
das receitas patrimoniais do governo,
duas variáveis que se correlacionam com o poder aquisitivo individual e com a
riqueza coletiva, respectivamente. Em
segundo lugar, a simplificação excessiva adotada impossibilita traçar uma
estratégia distinta daquela que se apóia tão somente na rolagem dos títulos
públicos. Trataremos esses dois pontos
sucessivamente.
- A
economia política do (des) ajuste fiscal, uma visão ampliada do endividamento
O indivíduo, nas suas atribuições de produtor e
de consumidor, tem sido profundamente afetado pela forma de gestão das finanças
públicas ao longo do Plano Real. A
carga tributária bruta representada pelo imposto de renda passou de 4,1 para
5,1 do PIB, entre 1995 e 1999, com
aumento de 25% [cf. Conjuntura Estatística in: Conjuntura Econômica, out.
2000, FGV]; do valor recolhido 70% é arrecadado na fonte e penaliza,
provavelmente, as já combalidas finanças da classe média. A carga tributária bruta dos quatro
principais impostos federais (IPI, IOF, CPMF e FINSOCIAL) aumentou de 40% no
mesmo período, passando de 4,4 para 6,2% do PIB [ibid]; também esse aumento de carga tributária em
apenas 4 anos incide, mais uma vez, sobre a classe média, embora já inclua os
segmentos mais ricos da população e o universo empresarial.
Com os dados publicados é possível acreditar
que, no curto espaço de uma década, a carga dos impostos federais cresceu em
torno de 50% . Mais grave é que esse aumento ocorreu
em período de estagnação da atividade econômica, pois avalia-se que o PIB de 1999, em dólares, tenha sido
menor do que o de 1995 (estimado em US$ 705 bilhões), evidenciando o
clima recessivo da segunda metade da década de 1990.
Por outro lado, não há dados empíricos que
permitam supor que o aumento da carga tributária federal destinou-se à melhoria
de qualidade ou à ampliação dos serviços públicos e típicos de Estado, nem à
melhoria dos salários do funcionalismo.
Pelo contrário, acredita-se que
houve uma importante deterioração salarial, uma queda na qualidade e
na quantidade dos serviços prestados.
O ítem pessoal + encargos sociais por exemplo, passou de 40 a 24% da receita
fiscal entre 1995/1999, com perda de poder aquisitivo superior a 60% As fronteiras do Brasil estão desguarnecidas
e o espaço aéreo, comenta-se, é invadido impunemente. A segurança pública fragiliza-se a cada dia.
Uma outra maneira de bem aplicar os recursos
obtidos com a tributação seria o aumento do patrimônio coletivo, sob forma de
investimentos estratégicos do ponto de vista econômico ou ambiental, ou ainda
em setores relacionados à qualidade de vida. O acréscimo verificado de 5% do
PIB na carga de impostos federais garantiria, por exemplo, cerca de US$ 35
bilhões anuais, mais do que suficientes para a proteção e o desenvolvimento da
Região Amazônica. Nada disso ocorreu,
no entanto, pois o patrimônio coletivo
de que dispúnhamos até a década de 1980 foi privatizado e, em grande número de
casos, desnacionalizado, e a Amazônia está desprotegida e exposta à cobiça
internacional.
Tamanho sacrifício de pelo menos 1/3 da
população, do funcionalismo público civil e militar, e das riquezas nacionais,
poderia, enfim, ter sido compensado pela redução do endividamento público
interno e externo, o que não deixaria de representar uma grande conquista do
ponto de vista da soberania nacional.
Nem isso ocorreu. A dívida
externa foi duplicada durante os anos 1990, e a dívida pública mobiliária
interna, apenas do Governo Federal, foi multiplicada por quase cinco, entre
1995 e julho de 2000 !
DIVIDA MOBILIÁRIA INTERNA EM PODER DO PÚBLICO
GOVERNO FEDERAL (em R$ milhões) - 1995 / julho de 2000
Anos................... Receita fiscal...........Dívida
mobiliária............Relação
Gov. federal (a) interna federal (b) (b) / (a)
1995 86.293
108.486 1,26
1996 97.131 176.211 1,81
1997 116.006 255.509 2,20
1998 139.052 323.860 2,33
1999 158.779 414.901 2,61
Fonte: Caderno “Conjuntura Estatística- Finanças
Públicas”, Revista Conjuntura Econômica, outubro 2000. FGV/Rio de Janeiro.
Com os dados da tabela acima, e à luz das
considerações anteriores, fica difícil aceitar, passivamente, que tenha sido obtido um ajuste fiscal na segunda metade da década de 1990 e que
este se encontre em fase de consolidação. Mais do que uma realidade o que existe é o mito do ajuste fiscal,
isto é, a idéia que é possível prolongar, indefinidamente, um aparente
equilíbrio entre o montante atual da dívida pública interna (que se aproxima,
perigosamente, de 50% do PIB) e a capacidade fiscal de geração de um superávit
primário da ordem de 3% do PIB (3). Ora, este
suposto equilíbrio exigiria uma taxa real de juros de no máximo 6% ,
viabilizando estabilizar a dívida em R$
500 bilhões e o pagamento anual de juros em R$ 30 bilhões, ou 3% do PIB. Mas
como, em sã consciência, acreditar que uma tal situação possa ser “congelada” e
se reproduza por muito tempo, a exemplo
dos modelos de equilíbrio geral ou parcial ?
Na verdade, a execução do Plano Real gerou um
profundo e crônico desequilíbrio fiscal que fica absolutamente evidente quando
se compara o processo e o ritmo de endividamento à capacidade de geração de
receitas federais. A classe média da população brasileira, particularmente,
está empobrecida e sitiada economicamente por tres flancos : dos impostos a pagar, dos salários
congelados e do aumento das tarifas dos serviços públicos privatizados. A legitimidade do governo esvai-se de muitas
formas, interna e externamente, não sendo raras as ocasiões em que
representantes de órgãos internacionais de financiamento apresentam-se em
debates públicos para reforçar o “mito do ajuste em vias de consolidação e do
cenário promissor que se abrirá uma vez concluídas as reformas internas” ! ... Tudo indica que o desequilíbrio fiscal
funciona como uma porta escancarada por onde penetram agentes do poder
imperial, em manobras que relembram os antigos tempos da República Velha
quando as dívidas externa e interna prosperavam à sombra da estabilidade
monetária.
-
A
estratégia do (des) ajuste
Se o orçamento federal fosse mais entendido,
mais debatido em ambientes abertos ao grande público, como é o caso do
orçamento participativo do Rio Grande do Sul, é provável que não chegaríamos à
situação atual. Nem estaríamos
submetidos à única estratégia admitida pelo pensamento único global : honrar as dívidas externa e interna, sem
auditoria, sem comprovação da exatidão dos números, sem atribuição de
responsabilidades, dilapidando a riqueza nacional acumulada ao longo de 50
anos. Sem a prática anti-democrática
das medidas provisórias, muitos desacertos poderiam ter sido evitados. Sem a independência, e a impunidade, com que agem os responsáveis pela política
monetária, não teria sido possível acumular, em tão pouco tempo, tantos e tão
graves desajustes. Sem a quebra da estabilidade do funcionalismo público,
muitas vozes já se teriam levantado contra a orientação da política fiscal no
próprio interior do setor público.
A situação atual é quase desesperadora. As finanças públicas estão a mercê dos
fluxos especulativos do capital internacional e da sua capacidade de
desestabilizar as moedas e as economias nacionais. Ninguém acredita mais que a entrada de capital estrangeiro seja
um fator de desenvolvimento dos países ditos “emergentes”. Quando o governo federal dolariza a dívida
interna mediante a emissão de títulos cambiais, ele certamente o faz sob
pressão, na tentativa de adiar o “dia do juízo final”, isto é o dia em que o
grande capital recusar a rolagem da dívida pública por uma simples questão de
“mau humor”, isto é de não satisfação de suas infinitas e desmesuradas ambições
com relação ao nosso já modesto patrimônio nacional. Na verdade, a dívida pública é um instrumento de chantagem à
disposição de todos e de qualquer um ...
A política sugerida no discurso oficial,
travestida de ajuste fiscal, é suicida e desestabilizadora do governo e da
aparente democracia liberal em que vivemos.
Não haverá soluções mágicas nem economicistas. O primeiro passo consiste em abandonar a tutela do FMI, renegando
este e os futuros acordos, sempre que eles se apoiarem no empobrecimento da
população e no abandono da soberania. Afinal de contas, os programas propostos
pelo FMI já se mostraram inadequados não só ao Brasil, como a muitos outros
países. Assim como nos anos 1930, a
superação da fragilidade atual requer a unidade das diferentes classes sociais
em torno de um projeto nacional que dê
prioridade aos direitos do povo brasileiro e à soberania da nação.
Mais do
que nunca verifica-se, hoje, a total
incompatibilidade entre o ajuste neoliberal e a soberania, entre a soberania e
o empobrecimento do povo brasileiro. O resgate da legitimidade do governo e o
exercício da soberania não podem mais dispensar o apoio da opinião pública
brasileira. Sem ela o Governo ficará a
reboque dos credores e dos especuladores, o que só pode aprofundar a crise
atual.
(artigo publicado no jornal Monitor Mercantil
de 8 de dezembro de 2000)
*(cientista social e
pesquisadora com especialização em Economia Pública, membro de ATTAC-RJ)
(1) “Rumo à consolidação do
ajuste”, por Fábio Giambiagi.
(2) Conforme apresentado no artigo citado, o ajuste fiscal consiste em : a) existência de um superávit primário no governo central de R$ 16,2 bilhões, equivalente a 12% da receita total arrecadada até julho de 2000, superavit que decorre fundamentalmente do “aumento nominal da receita”, paralelamente a uma “queda real de 3,3% da despesa” ; b) expectativas positivas de aumento da receita no segundo semestre deste ano, em razão da retomada do nível de atividade econômica ; c) superavit primário total, consolidado, de R$ 24,3 bilhões, até julho de 2000, bastante próximo do valor acordado com o FMI (R$ 29 bilhões, isto é 20% superior ao valor efetivamente realizado). Finalmente, o autor assinala que o PIB de 1999 deverá ser revisto pelo IBGE, para baixo, o que levaria à redução dos valores combinados com o FMI ! Explica ainda que a consolidação do ajuste implicou em rever para baixo a meta do superavit fixada para 2000, pois a previsão inicial que consta da LDO obrigaria a fazer um “novo esforço de contenção de despesas, social e politicamente desgastante”. As metas de 2001 também foram revistas para baixo, em aproximadamente 10%.
(3) A dívida de estados, municípios e estatais estaduais está em
torno de R$ 250 bilhões, cerca de 3 vezes a arrecadação anual de ICMS (cf
M.C.Prado, Gazeta Mercantil de 3-5 de novembro de 2000). Confirma-se, no artigo de M.C.Prado, que “os
lucros da Petrobrás vão contribuir muito para o comportamento das contas
fiscais consolidadas”. No conjunto,
dívida de estados e de municípios, e a DPMF podem estar próximas a 80% do PIB
!, desmascarando mais uma vez a idéia de que há um ajuste fiscal em vias de
consolidação.